A picaretagem conquistou o mundo?

A picaretagem conquistou o mundo?

Resenha

20 set 2022

Autor

José Costa Júnior

Imagem

Arte IQC sobre capa de “Como a Picaretagem Conquistou o Mundo”

 

Em 1841, o inglês Charles Mackay fez o seguinte alerta em Ilusões populares e a loucura das massas: “Já se disse com acerto que os homens pensam como hordas […] Veremos que enlouquecem em hordas ao passo que só recobram o juízo devagar, e um por um”. Como a Picaretagem Conquistou o Mundo: Equívocos da Modernidade, livro do britânico Francis Wheen (1957), mostra como a hipótese de Mackay ainda é atualíssima. Também mostra como a razão, uma das poucas ferramentas da limitada capacidade humana para evitar a ilusão e a loucura, pode ser abandonada e traída, conforme o contexto e as circunstâncias.

Wheen foi o Colunista do Ano de 1997 na Inglaterra, por suas contribuições ao diário britânico The Guardian. É autor de uma das mais informativas biografias de Karl Marx (ganhou o prêmio Isaac Deutcher em 1999 e foi traduzida no Brasil pela Editora Record), e de The Soul of Indiscretion, sobre a vida de Tom Dribberg (obra que recebeu o Prêmio Orwell de 2003). Escreveu também Strange Days Indeed: The Golden Age of Paranoia (2009, sem edição no Brasil), sobre os medos e atitudes irracionais dos anos 1960 e 1970. Como a Picaretagem Conquistou o Mundo é uma crítica a diversos posicionamentos – econômicos, políticos, religiosos e filosóficos – apontando sua irracionalidade e seu caráter “picareta”, que trazem consequências relevantes para a vida das pessoas e para a sociedade.

O livro foi primeiramente publicado na Inglaterra e nos EUA em 2004, com o título How Mumbo-Jumbo Conquered the World. A tradução de “mumbo-jumbo” por “picaretagem” foi um momento feliz da edição brasileira realizada pela Record, com texto em português de Vera Ribeiro. Como o subtítulo diz, a obra trata dos ditos “Equívocos da Modernidade” na visão de Wheen. Boa parte do que é descrito no livro envolve os contextos políticos e culturais da Grã-Bretanha e dos EUA, porém muitas situações, nos mais diversos países e instituições, são citadas e duramente criticadas.

O prólogo traz duas situações ocorridas no ano de 1979 que, segundo o autor, representam dois dos principais equívocos da contemporaneidade: a volta do Aiatolá Khomeini para o Irã, e a ascensão de Margareth Thatcher ao cargo de primeira-ministra do Reino Unido. O retorno do Khomeini e a posse de Thatcher constituem, na visão de Wheen, momentos de traição às bases do Iluminismo, uma vez que a primeira situação reestabelecia um regime de governo religioso de 1300 anos atrás, e a segunda teria consequências socioeconômicas impactantes para a vida dos ingleses, com seu posicionamento liberal extremo.

Na introdução, o autor esclarece o que chama de “mumbo-jumbo”: uma série de crenças, ações e atitudes humanas que traem e abandonam os valores desenvolvidos no Iluminismo, movimento que “submete todas as opiniões aceitas ao teste da razão”, principalmente aquelas relativas ao comportamento humano, com vistas à melhoria da condição humana.

O movimento iluminista dos séculos 17 e 18 foi pautado na insistência da autonomia do intelecto, na rejeição da tradição e da autoridade como fontes da verdade, no horror ao fanatismo e ao dogmatismo, além do compromisso com a liberdade e com o conhecimento. Nesse sentido, a aplicação de tais princípios transformaria a qualidade da experiência humana na Terra. Se “o sono da razão produz monstros”, conforme nos disse Francisco de Goya (1746-1828), as últimas décadas do século 20 produziram alguns monstros sinistros e outros cômicos. Dessa forma, Wheen acredita que tais ataques à razão constituem uma ameaça à civilização, tanto pela forma (ampla aceitação de mitos), quanto pelo conteúdo (a “picaretagem” que dá título ao livro).

O primeiro capítulo, intitulado “A revolução da feitiçaria”, explica porque a volta do aiatolá e a eleição de Thatcher são momentos de ataque aos ideais iluministas, ou “eventos que podem ser reconhecidos como arautos da nova era”. Ambos representam poderosos credos messiânicos, cujas práticas encontraram sua expressão mais horrenda no 11 de Setembro, o ataque às Torres Gêmeas do World Trade Center. Para Wheen, o aparente conflito entre a modernidade (do neoliberalismo econômico e de Thatcher) e o medievalismo (dos valores e práticas fundamentalistas) não existe.

Ambos envolvem crenças errôneas (a “feitiçaria” a que se refere o título do capítulo): os fundamentalistas, que mesmo com sua desenvolta estrutura tecnológica, eram motivados por valores antiquados e irracionais, e os neoliberais conservadores, engajados numa luta contra o modo pelo qual o mundo se desenvolvera ao longo do século 20 (contrários ao bem-estar social, às economias reguladas e às liberdades pessoais). Ao longo do capítulo, Wheen apresenta como essa visão trouxe problemas sociais, políticos e econômicos para a Grã-Bretanha, mostrando também como o que chama de “turbocapitalismo” tornou-se a ortodoxia econômica.

Em “Velhas panaceias, novos frascos”, segundo capítulo do livro, Wheen mostra como o novo cenário onde o “dinheiro é poder” motivou o florescimento do mercado da literatura de autoajuda. As “panaceias” às quais o título faz referência são as orientações e conselhos de gurus para aqueles que buscavam entrar no mundo dos ricos. O autor nos mostra que, na década de 1980, esse mercado cresceu tanto que ângulos cada vez mais exóticos precisavam ser explorados para chamar a atenção dos “leitores de aeroporto”.

Citando um satirista da época, que dizia que “a única maneira de enriquecer através de um livro ‘fique-rico’ é escrever um”, Wheen apresenta o médico americano Deepak Chopra, megaestrela de um mercado de US$ 560 milhões anuais e algumas de suas reflexões. No final do capítulo, para ilustrar o alcance dos “novos frascos”, temos a descrição do encontro entre Bill Clinton e “especialistas em promoção do bem-estar”, que o “ajudaram a buscar o caminho de volta” em momentos de tensão quando era presidente dos Estados Unidos, ou o “homem mais poderoso da Terra”.

Há muitas descrições das propostas impactantes e absurdas dos gurus, o que contribui para compreender o sucesso desse tipo de literatura. Wheen também destaca como essa forma de orientação é uma traição aos ideais do Iluminismo, como a autonomia e o esclarecimento.

No terceiro capítulo (“É o fim do mundo tal como o conhecemos”) tem-se um ataque contra “os intelectuais mais conhecidos do começo da década de 1980”, que defendiam o surgimento de alterações relevantes na compreensão da realidade. “Fim da arte”, “fim da natureza”, “fim da ciência” foram referências comuns na produção intelectual de então. No entanto, uma proposta destacou-se: a do americano Francis Fukuyama. Para este autor, que parte da proposta hegeliana do desenvolvimento histórico, o capitalismo é o último capítulo da história da Humanidade. Wheen brinca que “os homens e mulheres da Idade da Pedra também presumiam que seu estilo de vida era imutável”. Além disso, cita que o hegelianismo, principal influência de Fukuyama, é fruto de uma época de “interpretações imaginativas do mundo”, destoando da busca de valores e interpretações objetivas do Iluminismo.

Samuel Huntington – historiador britânico que propõe a hipótese do Choque de Civilizações – também é duramente criticado por seu “pessimismo conservador em relação à outras culturas”, que fez muito sucesso entre o establishment político, econômico e cultural da época. O “fim da história” e o “Choque” foram propostas deterministas, que, para Wheen, “não reconheciam a pluralidade complexa que constituem aquilo a que chamamos história”.

E o cenário intelectual fica ainda mais “picareta” para Wheen. No quarto capítulo, intitulado “Mercadores de demolição da realidade”, o autor mostra como a corrente desconstrucionista e seus aliados – rotulados de “pós-modernistas” – criaram uma espécie de hegemonia nas universidades. A posição geral desse “modismo” era de que a ciência e a cultura eram apenas “textos” socialmente construídos e falar de “realidade” era inviável. Tudo era “construção”, principalmente a “verdade”, a “justiça” e os “direitos”. Para Wheen, esse posicionamento inviabiliza qualquer crítica política e social, uma vez que todas as certezas e realidades seriam “ficções”.

Não deixa de ser interessante que um intelectual que se identifique como “esquerdista” critique esse tipo de posicionamento relativista, uma vez que estes sempre estiveram politicamente ligados à esquerda. O capítulo termina com a análise de alguns casos de “paralisia da razão” dos contextos britânicos e americanos, como o ensino do criacionismo nas escolas e as discussões sobre óvnis.

No capítulo “Os catastrofistas”, Wheen crítica a credulidade em profecias, a partir da falta de clareza e de critérios dos profetas, sejam discípulos de Nostradamus ou astrólogos que veem o futuro a partir da disposição de corpos celestes. No entanto, um problema maior se dá quando as nações mais desenvolvidas do mundo se mostram cada vez mais adeptas da superstição, situação que tem implicações muito relevantes.

Um dos indícios de que cada vez mais acreditamos “em qualquer coisa” é o aumento da medicina dita “complementar”, um “retrocesso da razão e do método científico”. Wheen retoma a discussão sobre óvnis, citando o famoso e amedrontador caso Roswell,. É provável que o elemento central da credulidade seja o medo, mas tal possibilidade é pouco explorada por Wheen. O capítulo termina com a descrição de algumas profecias apocalípticas, o que encaminha para a próxima “picaretagem”.

O sexto capítulo (“Com Deus do nosso lado”) começa apresentando o paradoxo que configura o amplo papel que a religião mantém num estado laico como os Estados Unidos (este capítulo é mais limitado à perspectiva americana). Presidentes discursando messianicamente para plateias religiosas, lobbies políticos motivados por crenças sobrenaturais, entre outras situações, apontam como certos interesses políticos são envolvidos com questões religiosas em nome do “bem”. A própria Declaração de Independência Americana, como bom fruto do Iluminismo, é traída nessa situação.

A divisão do mundo entre “Nós e Eles” é tema do sétimo capítulo. A identificação dos inimigos políticos das potências ocidentais com um “mal” metafísico muito mal explicado é ironizada várias vezes ao longo do capítulo. Exemplo dessa associação é a utilização dos termos “Eixo do Mal” para descrever inimigos americanos como o Irã e a Coréia do Norte. A necessidade constante de vilões estaria diretamente atrelada à manutenção do “complexo industrial-militar”, principalmente no caso dos Estados Unidos. Para Wheen, seria difícil explicar para um extraterrestre o medo que a nação mais militarizada do planeta sente de seus potenciais inimigos.

O capítulo é ricamente detalhado sobre práticas escusas da CIA durante a Guerra Fria. No entanto, as tentativas de influência e apoio desenvolvidas pela CIA contra o “mal” soviético configuraram aquilo que o autor chama de “tiro pela culatra”: um dos beneficiados pela política americana foi um jovem engenheiro saudita que lutava no Afeganistão invadido pelos soviéticos, chamado Osama bin Laden.

O Iluminismo volta a ser central no oitavo capítulo, intitulado “Velas ao vento”. Wheen inicialmente apresenta as críticas dos filósofos Alasdair MacIntyre e John Gray ao projeto iluminista a partir, respectivamente, de uma retomada tomista e de uma adesão ao misticismo oriental. O autor mostra que, ao contrário do que pensam esses críticos, o Iluminismo não representa um projeto “imperialista brutal” de subjugar outras culturas, mas sim de insistir na dignidade e na liberdade humanas contra aqueles que buscavam subjugar a Humanidade de qualquer modo.

Outro ataque famoso foi desferido por alguns filósofos da chamada Escola de Frankfurt, para quem o Iluminismo, na sua fúria racionalista, levou ao Terror da Revolução Francesa, às câmaras de gás dos nazistas e aos gulags soviéticos. Para Wheen, trata-se de uma compreensão equivocada, baseada em leituras errôneas da dinâmica das ideias. A ausência dos valores iluministas é o que, segundo o autor, torna tudo mais difícil em todos os âmbitos da experiência humana, da política, passando pela economia e chegando até à vida das pessoas, que tomadas pela irracionalidade, perdem a sua autonomia.

Com o curioso título “A direita é a nova esquerda”, o nono capítulo é mais atrelado ao contexto britânico da segunda metade do século 20. O autor critica as decisões políticas e econômicas pós-Thatcher, apontando suas contradições e ausência de práticas efetivas para melhorar a vida dos cidadãos. A estrela intelectual desse novo cenário foi o sociólogo britânico Anthony Giddens, autor de A terceira via, uma proposta que, segundo Wheen, era “uma caricatura grotesca das discussões sobre o papel do Estado”, com o “mesmo rigor intelectual de Bambi”.

A crítica de Wheen é que essa nova proposta, além de ficar “em cima do muro” entre as chamadas direita e esquerda, não tem nenhuma efetividade em termos de melhoria da vida das pessoas. No entanto, essa nova visão foi adotada, além dos EUA e do Reino Unido, na Alemanha e no Brasil (Wheen cita nominalmente o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso). Enfim, mais uma vez, os ideais iluministas com vistas ao bem-estar dos indivíduos eram mais uma vez esquecidos em nome de uma “quadratura do círculo” mezzo liberal, mezzo estatal.

“Avançando para o passado”, décimo capítulo, é dedicado à crítica aos rumos do capitalismo a partir dos anos 1990. Wheen acompanha o desenvolvimento histórico do fenômeno da globalização e do livre mercado, mostrando como a desigualdade aumentou ao longo desse processo. A cultura do consumo que surge aqui é retratada na divisão desenvolvida por Thomas Friedman entre “ávidos” consumidores e plantadores de “oliveiras”, à qual Wheen ironicamente critica, questionando se expectativas de consumo são realmente o objetivo de 1,3 bilhão de pessoas que ainda vivem com menos de um dólar por dia.

Esses novos “evangelizadores” do livre mercado tomavam o sistema como devidamente adequado, pautado pela globalização e pela Nova Ordem Mundial, sem esboçar qualquer tipo de análise das desigualdades inerentes. O capítulo termina com uma interessante comparação entre aquilo com que viviam os 10% mais pobres e a inflação de 70 países: “a renda dos desvalidos da Terra não acompanhou sequer a inflação” (p. 282).

O último capítulo, “A feitiçaria revisitada”, desfere o último ataque à ortodoxia econômica liberal e às consequências do fanatismo das “seitas patológicas”, para retornar aos temas que iniciaram o livro. Primeiramente, Wheen mostra que o neoliberalismo foi incapaz de melhorar a vida no Ocidente e trouxe mais desgraças do que progressos. As crises e “histerias” econômicas dos anos 1990 no EUA, ilustradas por Wheen pelo estouro da bolha das empresas de internet, mostravam as consequências de um sistema agressivo e ganancioso.

As consequências da desregulamentação do mercado e a falta de escrúpulos dos turbocapitalistas culminam no escândalo que envolveu a empresa de energia Enron, o maior caso de falência da história industrial norte-americana. Wheen descreve a crise dos fundos de derivativos (“novo paradigma da gestão de valores” com “garantia de altos lucros absolutos”), que em 2004 (ano de lançamento do livro) ainda era incipiente, mas que culminaria na crise de crédito que afetou o mundo inteiro em 2008. Na segunda parte do capítulo, o autor aponta como o fanatismo e o extremismo formaram (e efetivaram com o 11/9) uma ameaça ao Ocidente e seus ideais e padrões.

A ausência de crítica e análise da conjuntura internacional do contexto da Guerra Fria, juntamente com a “visão do Ocidente e do mundo islâmico como duas civilizações monolíticas e irreconciliáveis” que envolveram as últimas décadas do século 20 foram posturas que contribuíram para a “onda” terrorista que ainda hoje assola o mundo e causa tanta insegurança. Wheen questiona como os maiores poderios militares e culturais do mundo não puderam prever consequências tão trágicas.

A “traição dos ideais e valores iluministas” por aqueles que “querem nos aprisionar numa vida nas trevas” acarretou muitas tragédias no “breve século 20” da descrição do historiador Eric Hobsbawm. A proposta de Wheen foi mostrar como essa traição se efetivou na vida cultural, na economia e na política, culminando na complexa teia de relações que formam o que chamamos de vida ocidental. A picaretagem parece realmente ter conquistado e mantido seu domínio no mundo. Como profundo conhecedor da vida e da obra de Karl Marx, era de se esperar que Wheen nos convidasse à revolução, mas não é o que acontece. O único caminho apontado é a uso constante da crítica e da razão. Após a divertida e enriquecedora leitura do mapeamento da atualidade proposto por Francis Wheen, nos questionamos o quanto de razão será suficiente para calar os “monstros” que surgem do seu muitas vezes profundo sono. Inclusive em nosso país, com seus “mitos”, “salvadores” e “inovadores”.

 

José Costa Júnior é professor de Filosofia e Ciências Sociais – IFMG Campus Ponte Nova

 

REFERÊNCIA

 

WHEEN, Francis. Como a Picaretagem Conquistou o Mundo: Equívocos da Modernidade. Trad. de Vera Ribeiro: Rio de Janeiro, Record, 2007.

(https://www.revistaquestaodeciencia.com.br/resenha/2022/09/20/picaretagem-conquistou-o-mundo?utm_campaign=newsletter_rqc_e_obs_-_05-08-2022&utm_medium=email&utm_source=RD+Station

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